Apneia Não Tratada Aumenta em 3x o Risco de AVC

Postado em: 23/12/2025

Risco de apneia e AVC não é exagero de médico para fazer você usar o CPAP. Hoje já está bem claro na otorrinolaringologia e na medicina do sono que dormir mal não é só ronco e cansaço: é fator de risco vascular

Quando a apneia do sono não é tratada, o paciente passa a noite inteira fazendo pequenas “paradas” de respiração, o oxigênio cai, o coração acelera para compensar e os vasos vão sofrendo. 

Com o tempo, isso aumenta o risco de derrame e distúrbio do sono caminharem juntos. Eu sou o Dr. Carlos, otorrino do Instituto Necchi Cortez, e vou te explicar por que eu levo tão a sério o ronco alto, a pausa de ar e o sono não reparador.

O que é apneia do sono e por que ela é perigosa?

A apneia obstrutiva do sono acontece quando, durante o sono, a via aérea fecha parcial ou totalmente. 

O ar não passa ou passa pouco, o cérebro percebe que está faltando oxigênio e manda você “acordar” rapidinho para puxar o ar. Você nem percebe, mas isso pode acontecer dezenas de vezes por hora.

Cada uma dessas microdespertares gera:

  • Queda de oxigênio;
  • Aumento de frequência cardíaca;
  • Picos de pressão;
  • Sono quebrado.

E quando isso acontece todas as noites, por meses e anos, o corpo paga a conta: inflamação, pressão alta e risco cardiovascular maior.

Como a apneia aumenta o risco de AVC?

Aqui está o ponto central: apneia não tratada triplica o risco de AVC porque ela sobrecarrega os vasos e o coração o tempo todo. O caminho costuma ser assim:

1. Hipóxia repetida

Toda vez que a respiração para, o cérebro recebe menos oxigênio. Esses episódios repetidos geram estresse oxidativo e inflamação nos vasos.

2. Picos de pressão à noite

O organismo tenta “compensar” a falta de ar aumentando a pressão. Isso vai machucando as artérias ao longo do tempo, inclusive as cerebrais.

3. Arritmias e sobrecarga cardíaca

Apneia grave pode desencadear alterações de ritmo do coração. Coração desorganizado + vasos inflamados = maior chance de evento vascular.

4. Aterogênese acelerada

Quem dorme mal e oxigena mal facilita o processo de endurecimento e obstrução dos vasos. E isso é uma das bases do AVC isquêmico.

Ou seja: não é a apneia “de ontem” que causa o AVC “hoje”. É a apneia não tratada por anos que aumenta o risco de AVC lá na frente.

Quem tem mais chance de ter apneia e não saber?

No consultório eu vejo perfis bem parecidos:

1. Roncador clássico

Pessoa que ronca alto, a família fala que “para de respirar” à noite, acorda cansada e acha que “é da idade”.

2. Hipertenso difícil de controlar

Paciente que toma 2 ou 3 remédios para pressão e ela não fica boa. Quando eu peço polissonografia, muitas vezes aparece apneia moderada/grave.

3. Sobrepeso e pescoço grosso

Excesso de peso aumenta o colapso da via aérea. Dormir de barriga para cima piora.

4. Mulheres pós-menopausa

Muita gente acha que só homem tem apneia. Não é assim. Alterações hormonais também mudam o padrão respiratório do sono.

Esse grupo, se não cuida do sono, entra na idade de maior risco vascular com um fator a mais.

Como eu avalio apneia no Instituto Necchi Cortez

Não é tudo “parece apneia”. Eu sigo etapas:

1. Entrevista de sono

Pergunto se ronca, se tem pausa, se acorda com engasgo, se tem sonolência diurna, se trabalha dirigindo, se acorda com dor de cabeça. A história já dá uma boa pista.

2. Exame otorrinolaringológico

Eu olho nariz, orofaringe, palato, língua, septo, amígdalas. Via aérea estreita, amígdala grande e rinite mal tratada aumentam muito o risco de apneia.

3. Polissonografia

É o exame que fecha o diagnóstico. Pode ser domiciliar ou em laboratório, dependendo do caso. Ele mostra quantas vezes o paciente para de respirar por hora (índice de apneia-hipopneia), queda de oxigênio e fragmentação do sono.

Se a apneia é leve, eu caminho de um jeito. Se é moderada/grave, aí já penso em tratamento com pressão positiva (CPAP) ou outras estratégias.

Apneia como fator de risco vascular

Essa expressão é importante: apneia como fator de risco vascular. Hoje ela entra na mesma conversa que:

  • Hipertensão;
  • Diabetes;
  • Colesterol alto;
  • Tabagismo;
  • Sedentarismo.

Ou seja: se eu descubro que o paciente ronca e tem apneia, eu já oriento que não é só ronco, é uma condição que participa do risco de AVC e infarto. Isso muda muito a adesão ao tratamento.

Tratamentos que eu uso / oriento

O tratamento depende do grau de apneia, da anatomia e do que o paciente consegue seguir.

1. Mudanças de estilo de vida

  • Perder peso quando há sobrepeso;
  • Evitar bebidas alcoólicas à noite;
  • Dormir de lado;
  • Tratar rinite e sinusite para respirar melhor.

Isso sozinho já melhora muitos casos leves.

2. CPAP (pressão positiva)

É o tratamento padrão-ouro para apneia moderada e grave. Ele mantém a via aérea aberta a noite inteira, impede as pausas e protege o sistema cardiovascular. Quem tem risco de apneia e AVC eu sempre oriento fortemente a usar.

3. Tratamentos otorrinolaringológicos

Quando o problema está muito no nariz (desvio de septo, hipertrofia de corneto), na orofaringe (amígdalas grandes) ou quando há colapso anatômico, podemos discutir cirurgia, sempre caso a caso. A ideia é melhorar o fluxo de ar e reduzir a gravidade da apneia.

4. Dispositivos orais

Em alguns pacientes, principalmente com apneia leve e perfil adequado, o uso de aparelhos intraorais que projetam a mandíbula pode ajudar.

O que acontece quando o paciente não trata

  • Acorda cansado todos os dias;
  • Piora da memória e atenção;
  • Aumenta o risco de acidentes;
  • Pode piorar disfunção erétil;
  • A pressão fica mais difícil de controlar;
  • E, a longo prazo, aumenta o risco de AVC.

Por isso eu sempre digo: ronco alto com pausa não é para “ir empurrando”. É melhor tratar aos 40 do que correr atrás do prejuízo aos 60.

Perguntas Frequentes

1. Tratar apneia previne AVC?

Ajuda muito a reduzir o risco. Quando tratamos a apneia, o paciente para de ter quedas de oxigênio, para de ter picos de pressão à noite e protege os vasos.

 Não dá para prometer que “nunca terá AVC”, porque isso depende de outros fatores (idade, genética, pressão, diabetes), mas dá para dizer que apneia tratada é bem menos agressiva para cérebro e coração do que apneia ignorada.

2. Exames para avaliar risco?

O principal para apneia é a polissonografia, que mostra a gravidade. Para avaliar risco vascular, muitas vezes vale fazer avaliação clínica completa, pressão, exames de sangue e, quando indicado, cardiológica e neurológica. Em alguns pacientes eu peço também oximetria noturna para ver como o oxigênio se comporta.

3. Só ronco, mas não paro de respirar: é perigoso?

Ronco isolado não é igual a apneia, mas é um sinal de que a via aérea está mais estreita. Em pessoas com sobrepeso, pressão alta ou sonolência diurna, eu prefiro investigar porque o ronco pode ser o “primeiro estágio” de um problema que vai evoluir.

4. CPAP é para sempre?

Em quem tem apneia moderada a grave e fatores de risco associados, normalmente sim, é de uso contínuo, porque ele está protegendo o sono e o coração todas as noites. Em casos leves, com perda de peso e melhora anatômica, dá para reavaliar.

Conclusão – Dormir bem também é infarto e AVC prevenidos

Quando eu falo que apneia não tratada aumenta em até 3x o risco de AVC, não é para assustar: é para mostrar que esse é um daqueles problemas silenciosos que a gente só vê quando procura. A boa notícia é que é uma condição diagnosticável e tratável

Quando o paciente passa a respirar a noite inteira, o corpo volta a oxigenar direito, a pressão estabiliza e o risco vascular cai. Então, se você ronca alto, faz pausa, acorda cansado ou já tem hipertensão/diabetes, não espere o primeiro susto. Tratar a apneia hoje é uma das formas mais simples de proteger o cérebro amanhã.