Otite do Nadador: Prevenção e Novos Tratamentos

Postado em: 25/12/2025

Otite em nadadores é uma inflamação chatinha do ouvido externo que aparece em quem vive dentro da piscina, no mar ou até no banho com muito jato de chuveiro. 

Eu sou o Dr. Carlos, otorrinolaringologista do Instituto Necchi Cortez, e vejo esse quadro com muita frequência em crianças que fazem natação, adultos que treinam todo dia e até em quem usa fone de ouvido o tempo todo. 

A boa notícia é que dá para prevenir na maioria dos casos e, quando a infecção fica mais resistente (a famosa otite externa resistente), hoje temos caminhos melhores de tratamento.

Quero te explicar de forma direta por que isso acontece, o que você pode fazer em casa para não ficar com o ouvido inflamado toda semana e quando é hora de procurar o otorrino.

O que é a “otite do nadador”?

A chamada otite do nadador é, na verdade, uma otite externa. Não é infecção do ouvido médio, não está atrás do tímpano. O problema fica no canal do ouvido, aquela parte que entra água. 

Quando esse canal fica úmido demais, a pele macera (amolece) e bactérias e fungos se aproveitam. Aí começa a coçar, doer quando mexe na orelha e, às vezes, até sair secreção.

O quadro clássico é assim: a pessoa nadou, sentiu que ficou um restinho de água, tentou tirar com cotonete, machucou um pouco a pele e, dois dias depois, o ouvido está doendo. Esse é o caminho mais comum.

Por que quem nada tem mais otite?

Tem alguns motivos:

1. Umidade constante

Ouvido que vive molhado perde a proteção natural. A pele do canal foi feita para ficar seca.

2. Água com cloro ou contaminada

Piscina de academia, mar com muita sujeira, lagoa… tudo isso pode carregar micro-organismos que aproveitam uma pele mais sensível.

3. “Futucar” o ouvido

Quem sente água dentro do ouvido costuma colocar cotonete, grampo, dedo. Isso arranha o canal e facilita a entrada de bactéria.

4. Uso de tampão/fone o tempo todo

Fone intra-auricular o dia todo deixa o ouvido sem ventilar, e isso também ajuda a inflamar.

Por isso nadador, surfista, triatleta, criança que faz natação e até idoso que nada por condicionamento físico tendem a ter mais otites externas ao longo do ano.

Sinais de que é mesmo otite do nadador

Alguns sinais de que é mesmo otite do nadador são esses.

Dor ao tocar a orelha

Se dói quando você puxa a orelha para trás ou aperta na entrada do ouvido, isso aponta muito para otite externa.

Coceira que virou dor

Começa coçando, depois a coceira vira ardência.

Sensação de ouvido tampado

Porque o canal incha e, às vezes, tem secreção.

Saída de líquido

Pode sair secreção transparente, esbranquiçada ou amarelada.

Se tiver febre alta, dor profunda, tontura ou queda de audição, aí já é caso de avaliar mais rápido.

Como eu trato no consultório

O tratamento que eu faço depende de como o ouvido está na hora do exame.

1. Limpeza do conduto

Muitas vezes a pessoa está com o canal cheio de secreção e não adianta pingar nada. Eu limpo o ouvido com material adequado, sem agredir, para o medicamento agir.

2. Gotas otológicas

Uso colírios/soluções específicos para otite externa. Eles têm ação contra bactéria e, às vezes, contra fungo. Não é qualquer gota e não é para usar remédio emprestado.

3. Analgésico

Quando está doendo bastante, passo analgésico ou anti-inflamatório. Otite externa dói mesmo.

4. Restrição temporária de água

Peço para não molhar o ouvido até fechar a inflamação. Essa parte é chata, mas é fundamental para não cronificar.

Quando o quadro está mais resistente, aquelas otites que voltam sempre, principalmente em nadador competitivo, eu avalio se não há fungo, se o canal não está estreito, se não há dermatite de contato por produto da piscina e, em alguns casos, oriento protetores auriculares sob medida.

Prevenção: o que realmente funciona

A melhor forma de não ter otite do nadador é cuidar do ouvido logo após o contato com água.

1. Secagem correta

Terminou de nadar, tomou banho, mergulhou? Seque por fora com toalha, sem enfiar nada. Incline a cabeça para o lado e deixe a água sair sozinha.

2. Não usar cotonete

Cotonete empurra água e cera para dentro e ainda faz microferidas. Para quem tem otite recorrente, cotonete é proibido.

3. Protetores auriculares

Para quem nada sempre, para quem tem ouvido muito sensível ou já teve otite externa resistente, eu indico protetores auriculares próprios para natação. Eles vedam sem machucar e não deixam a água entrar. Tem modelos prontos e tem sob medida.

4. Cuidar da pele do ouvido

Quem tem pele muito seca ou descamativa na orelha pode precisar de orientação específica. Pele irritada = ouvido mais frágil.

E quando a otite não melhora?

Se o paciente já usou remédio e não melhorou, eu penso em:

  • Fungo no ouvido (otomicoses);
  • Bactéria mais resistente;
  • Uso errado do medicamento;
  • Água entrando todo dia mesmo em tratamento;
  • Canal muito estreito.

Nesses casos, às vezes eu preciso trocar a medicação ou até fazer curativo de ouvido por alguns dias, para o remédio agir direto na inflamação.

Perguntas Frequentes

1. Como secar o ouvido corretamente?

O ideal é não enfiar nada. Se entrou água, incline a cabeça para o lado e espere sair. Dá para ajudar puxando levemente a orelha para trás. 

Pode secar a parte externa com toalha. Quem tem muita otite pode usar secador na temperatura fria, de longe, só para tirar a umidade. Cotonete dentro do canal, não.

2. Quando evitar piscinas?

Quando o ouvido está inflamado, saindo secreção ou doendo, é melhor evitar piscina e mar até resolver. 

Entrar na água com o canal já machucado prolonga a otite e aumenta o risco de infecção por germes da água. Criança com dor de ouvido não deve ir para a natação naquele dia.

3. Protetores auriculares funcionam mesmo?

Funcionam sim, desde que sejam do tipo certo. Tampão improvisado, algodão, pedaço de papel não vedam bem e ainda podem ficar dentro do ouvido. Os modelos para natação ou feitos sob medida são os mais indicados para quem tem otite de repetição.

4. Otite do nadador precisa de antibiótico por boca?

Na maioria dos casos, não. Tratamento local resolve. Antibiótico por boca eu deixo para casos mais avançados, quando a infecção se espalhou, quando o paciente é diabético, imunossuprimido ou quando não conseguiu tratar só com gotas.

Conclusão – Ouvido saudável, treino sem pausa

Otite em nadadores não é destino de quem gosta de piscina. Na maior parte das vezes, é só ouvido que não foi bem cuidado depois do banho

Quando você aprende a secar direito, evita cotonete, usa protetor auricular quando precisa e trata logo no começo, o ouvido não vira um problema. E se a otite está sempre voltando, aí vale muito uma avaliação para ver se não há otite externa resistente ou alguma alteração anatômica facilitando a entrada de água. O objetivo é simples: você continua nadando, mas o ouvido não sofre.