Zumbido Cervical: Quando a Causa está no Pescoço

Postado em: 11/12/2025

Tratamento de zumbido cervical começa com uma pergunta simples: será que o som que você escuta no ouvido realmente vem do ouvido? Nem sempre. 

Existe um tipo de zumbido que não nasce de perda auditiva nem de lesão no ouvido médio, mas de tensão muscular na região do pescoço, da mandíbula e da ATM (articulação temporomandibular). 

É o que chamamos, de forma prática, de zumbido de origem somatossensorial ou zumbido cervical

Eu sou o Dr. Carlos, otorrinolaringologista do Instituto Necchi Cortez, e atendo bastante esse perfil: pessoas que fizeram exame de audição normal, mas continuam com barulho. 

Vou te mostrar como eu penso esses casos e como montar um tratamento que envolva ouvido e pescoço.

O que é zumbido cervical?

O zumbido cervical é um zumbido que piora ou aparece quando há tensão ou disfunção na musculatura do pescoço, ombros ou mandíbula

Em vez de ter origem apenas no sistema auditivo, ele tem uma forte participação dos nervos e músculos da região cervical

É por isso que, às vezes, ele muda de intensidade quando o paciente vira a cabeça, mastiga, aperta o dente ou até quando fica muito tempo no computador.

Esse zumbido também pode estar ligado ao que o paciente chama de zumbido por tensão muscular, quadro típico de quem fica rígido, com trapézio duro, bruxismo e dor na base do crânio.

Por que o pescoço influencia o ouvido?

O ouvido interno conversa com o sistema nervoso que passa pelo pescoço e pela mandíbula. Quando essa região está irritada, inflamada ou tensa, ela pode mandar sinais aumentados para o cérebro, que interpreta aquilo como som. 

Não é que o ouvido esteja “doente”, mas o cérebro está recebendo um estímulo diferente e transformando em zumbido.

Outro ponto importante: ATM e zumbido têm tudo a ver. Quem aperta muito os dentes, range à noite ou tem desalinhamento da mordida pode sobrecarregar a musculatura próxima ao ouvido. 

Essa tensão chega perto da tuba auditiva e da região da orelha média e o paciente passa a ouvir zumbido, pressão ou até estalos.

Como eu suspeito que o zumbido é cervical

Tem alguns sinais que me fazem olhar para o pescoço:

1. Zumbido que muda com movimento

Se o paciente fala “doutor, quando viro o pescoço ele aumenta” ou “quando alongo o ombro ele some um pouco”, isso é típico de zumbido de origem somatossensorial.

2. História de dor no pescoço e nos ombros

Pacientes que trabalham muito tempo sentados, sem pausa, com postura ruim, costumam ter músculos encurtados. E esse encurtamento pode “irritar” o ouvido.

3. Bruxismo e ATM dolorosa

Quando a pessoa mastiga e o zumbido piora, ou quando acorda com a mandíbula dolorida, eu já penso em ATM e zumbido caminhando juntos.

4. Audiometria normal

Se o exame de audição veio bom, mas o zumbido está lá, eu preciso procurar outras origens, e a cervical é uma das principais.

Como eu avalio no consultório

No Instituto Necchi Cortez, eu começo como todo otorrino: examino o ouvido, vejo o tímpano, peço audiometria e imitanciometria quando necessário. Isso é para garantir que não estamos deixando passar uma causa auditiva.

Depois, eu avalio:

1. Postura e mobilidade cervical

Peço para o paciente virar o pescoço para os lados, olhar para cima e para baixo e observo se o zumbido muda com o movimento.

2. Palpação de músculos

Pressiono alguns pontos do pescoço, trapézio e masseter. Se o zumbido aumenta ou aparece quando toco, isso é pista muito forte de origem cervical.

3. ATM

Vejo se há estalos, desvio na abertura da boca, dor na frente do ouvido. ATM alterada pode disparar ou piorar o zumbido.

4. Histórico ocupacional

Trabalho em computador, tocar instrumento, costura, direção por muitas horas, tudo isso pode manter o pescoço em tensão crônica.

Tratamento: por que não é só “remédio para zumbido”

Se eu descobrir que o zumbido tem componente cervical, não adianta pensar só em ouvido. O tratamento precisa ser multimodal, e aí entra fisioterapia, exercícios e, às vezes, ajustes na ATM.

1. Correção da causa muscular

Eu oriento alongamento cervical, mudança de postura, pausas no trabalho e, em alguns casos, fisioterapia cervical. Esse tipo de zumbido responde bem quando tiramos a irritação do pescoço.

2. Fisioterapia auricular / orofacial

Em alguns casos, ainda mais quando há ATM envolvida, a fisioterapia auricular ou orofacial ajuda a relaxar a musculatura próxima ao ouvido, liberar pontos de tensão e melhorar mobilidade. É uma abordagem que combina bem com o otorrino.

3. Tratamento da ATM

Se o bruxismo está disparando o zumbido, eu encaminho para dentista/odontologia especializada em DTM. Às vezes, uma placa de mordida noturna e ajustes de musculatura fazem o zumbido cair bastante.

4. Controle de ansiedade e sono

Zumbido adora ansiedade. E tensão cervical adora insônia. Então eu sempre pergunto de sono, estresse e rotina. Em alguns casos, organizar o sono e reduzir cafeína e tela à noite já ajuda bastante.

5. Tratamento auditivo quando necessário

Se houver perda auditiva associada, aí eu trato também a parte auditiva (aparelho auditivo, reabilitação), porque ter duas causas mexendo no mesmo circuito piora o zumbido.

Zumbido por tensão muscular: o ciclo

Eu explico para o paciente assim:

  1. Postura ruim / tensão no pescoço;
  2. Musculatura da região fica rígida;
  3. Essa rigidez manda estímulos aumentados para a região da orelha;
  4. O cérebro interpreta como zumbido;
  5. A pessoa fica mais ansiosa e tensiona mais o pescoço.

O tratamento quebra esse ciclo.

Quando eu peço exames de imagem

Nem todo mundo precisa, mas se o paciente tem dor cervical importante, histórico de trauma, alteração neurológica ou zumbido muito assimétrico, eu posso pedir exames como raio-x ou ressonância da coluna cervical

É para garantir que não tem nada comprimindo nervos ou comprometendo mobilidade.

Perguntas Frequentes

1. Como identificar a origem cervical?

Desconfio de origem cervical quando o zumbido muda com o movimento do pescoço, piora quando o paciente está tenso, melhora com massagem/alongamento ou aparece junto de dor cervical e ATM dolorida

Se a audiometria estiver normal e o zumbido for modulável (muda quando aperta músculo ou vira a cabeça), a chance de ser cervical é grande.

2. Qual profissional procurar?

Comece pelo otorrino, porque precisamos excluir causas auditivas e de ouvido médio. Se eu confirmar que o zumbido é somatossensorial/cervical, posso envolver fisioterapeuta especializado em cervical/ATM, fono (em alguns casos específicos) e odontologia de DTM. Às vezes, o melhor resultado vem justamente da combinação.

3. Exercícios caseiros ajudam?

Ajudam, desde que sejam orientados. Alongamento leve de pescoço, mobilidade de ombros e pausas no computador ao longo do dia fazem diferença. 

O que não pode é fazer exercício de força no pescoço sem orientação, porque isso pode aumentar a tensão e piorar o zumbido.

4. Zumbido cervical tem cura?

Em muitos casos, sim — ou pelo menos melhora sustentada. Quando tiro o fator de tensão (postura, ATM, trapézio), o zumbido diminui de volume ou some

Mas, se a pessoa volta para a rotina de tensão e má postura, ele pode reaparecer. Por isso eu sempre falo em tratamento + manutenção.

Conclusão – Ouvido e pescoço conversam, trate os dois

Se o seu zumbido muda quando você vira o pescoço, se ele piora no fim do dia de trabalho ou se você tem ATM dolorida e trapézio travado, vale muito a pena avaliar a causa cervical

O ouvido pode estar funcionando bem, quem está “gritando” é o pescoço. Quando tratamos músculo, postura, ATM e, se preciso, fazemos fisioterapia auricular, o zumbido costuma responder melhor do que quando tentamos apenas remédio. 

Não aceite viver com barulho constante sem investigação: zumbido cervical tem lógica, tem causa e tem caminho de tratamento.